Sobre o tempo que leva pra mudar uma cultura

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Versa o senso comum que mudar hábitos de um povo é tarefa demorada e complicada.

Talvez não. A velocidade com que nos adaptamos a tudo nessa vida é, provavelmente, nossa glória e nossa ruína.

Sábado passado fui a uma festa. Festão, aliás – umas 150 pessoas numa cobertura  com uma vista 360 graus da cidade, só comparável à do vizinho Terraço Itália.

E, como o Serra e o Kassab não apitam nada por lá, com cigarro liberado.

Ao chegar em casa, percebi, com desgosto, que minha roupa estava nojenta. Impregnada de um cheiro absurdo de tabaco, que parecia ter-se colado ao tecido. Não parava por aí. Meu cabelo e pele estavam no mesmo estado – uma camada meio gordurosa que grudava nos dedos quando tentava arrumar as madeixas no espelho do elevador. Cheiro de cigarro. Forte e nojento.

Mas, peraí. Não foi exatamente assim que eu cheguei em casa em muitas e muitas noites, ao longo de uns dez anos? Com esse cheiro, essa pele ensebada? Tendo que tacar a roupa toda no cesto de roupa suja imediatamente?

Era, era assim. Até quatro meses atrás. 4 meses, 120 dias. Mas parece que foi sempre assim. Após um tempo tão curto, não consigo mais conceber a idéia de um sujeito acender um cigarro ao meu lado, numa mesa de bar.

Até meus amigos fumantes parecem já ter se acostumado ao ritual de ir à calçada dar suas baforadas. Confesso que fico meio irritado com essa história de ter que interromper o papo a cada 20 minutos pra um ou mais deles saírem da mesa pra fumar. Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

A propaganda na tevê alardeia o sucesso. O site oficial diz que somente 405 multas foram aplicadas em 110.197 ações de fiscalização. Parece que a persuasão foi mais eficiente do que o talão de multas. Mérito da campanha educativa – é tão boa que consegue sobreviver até ao apoio do Barrichello!

E, como num passe de mágica, parece que a canetada dissociou dois ícones aparentemente inseparáveis: o cigarro e o boteco. O que a boemia reuniu, o Serra separou. Outros estados estão aderindo.

Mas… será que precisa do Serra? Será que precisa de lei, de canetada? Se o povo educou-se a ponto de deixar de fumar em bares e restaurantes, não pode também aprender a manter a direita quando usa uma escada rolante? A desligar o celular no cinema e o Blackberry no jantar? Não jogar lixo na rua? Não brigar com o outro motorista ou com o torcedor do time adversário? Não enfiar o dedo no nariz nem o dinheiro na meia?

Se precisar do empurraozão da lei, da multa, da cana – ok, Serra, Kassab, STJD,  mandem bala.

Mas, otimista crônico que sou, me recuso a achar que seja utopia…

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3 Respostas to “Sobre o tempo que leva pra mudar uma cultura”

  1. Clarissa B. Dutra Says:

    Acredito que é tudo questão de costume
    Pena que as pessoas mudam os hábitos, apenas, quando obrigadas, observadas ou quando correm risco de iminente ‘serem pegas’

    [Mas eu sou mais uma alma que perdeu a crença no ser humano ;] ]

    Clarissa Dutra

  2. Margot Says:

    Não é utopia mesmo, é realidade. É o tempo atual, e o povo (mesmo aqueles 150 que estavam fumando na festa) começa a sentir medo do que vem pela frente e tá todo mundo tratando de colaborar pra salvar o planeta. É possível que a educação venha junto…só espero que não sejamos ali no futuro, uns chatos de galocha!

  3. Marcio Vieira Says:

    Brasil só funciona na base da repressão que, neste caso, é para cutucar o bolso. E a Lei Seca, que não mais funciona pois boa parte da população já perdeu o medo das “blitzes” (descubram o plural de blitz, não sei).

    Ainda sobre o cigarro: tem muitos fumantes que vão para a praia, fumam, e guardam a bituca, ação bem civilizada. Mas quantos fumantes têm consciência com a bituca nas ruas? Por que os mesmos “sensibilizados” pelo Meio Ambiente limpam da praia e não pensam duas vezes para atacar bituca na sarjeta? Qual a diferença?

    Enquanto não inventarem um guarda marronzinho que multará pedestres que atravessam fora da faixa, pessoas que atacam bituca ou chicletes no chão, motoristas que não respeitam ciclistas, furadores de filas, que dirigem no acostamento das estradas, etc., não aumentará consciência ecológica e social no Brasil.

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