Garçom

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Sou extremamente crítico quanto à qualidade dos serviços que me são prestados. Quando vou a um bar ou restaurante, atendimento, instalações, higiene e a experiência como um todo são sempre avaliados. Às vezes até dou uma “nota” informal para o local, que será  determinante na minha decisão de voltar ou não ao lugar, indicá-lo a um amigo ou simplesmente deletá-lo da memória.

Então, chegou a hora de deixar de ser pedra e passar a ser vidraça: virei garçom.


A brincadeira durou três dias. Em férias na baiana Itacaré, fui dar uma força a uns amigos canadenses, que resolveram se mudar pra Bahia e abrir um bar na praia.

Logo percebi que não iria obter um retrato fiel do que é ser garçom. Minha experiência foi didática, lúdica e voluntária – nada profissional. Evidentemente, a coisa é bem diferente para quem tem de tirar dali o sustento da família. Então, resolvi focar minha observação em algo mais imediato e mensurável: a reação do cliente à minha atitude.

Eu estava em férias na Bahia, então não tinha motivo algum para não estar de ótimo humor. Isso transpareceu logo, quando uma bela turista paulistana perguntou: “Você é o dono? Está trabalhando feliz demais pra ser funcionário”.

Sorriso permanente, simpatia e proximidade sem invasão se mostraram ótimos investimentos, com excelente retorno. Rostos de clientes satisfeitos se multiplicavam, com a mesma velocidade que eu ganhava apelidos (gostei de “Mestre” e “Paulista”, achei engraçado o “Moral” e fiz cara feia quando chamaram de “Moleque”).

Jogo de cintura e gentileza na hora de contornar imprevistos ajudaram muito. Os hippies que receberam uma cerveja congelada a beberam com gosto quando anunciei que a mesma não seria cobrada na conta. O casal que havia ficado frustrado ao saber que a cozinha já estava fechada mostrou-se satisfeito ao ser surpreendido com uma tigela de pipoca de microondas (cortesia da casa). Uma mãe com um bebê de colo adorou quando improvisamos um cantinho mais tranqüilo para que pudesse amamentar.

Claro, sempre há um ou outro Neandertal, como o cara que, após ser mal-educado comigo, justificou a grosseria confidenciando ao amigo: “É que eu odeio paulista”. Ah, bom, falta de educação não pode, mas preconceito, tudo bem.

Porém, na maioria das vezes, gentileza gerou gentileza.

“Bom, e onde está a surpresa?”, o leitor pode perguntar.

Não há.

Mas parece que o óbvio anda sendo esquecido por aí. Prova disso é  a cara de espanto de muitos clientes ao deparar com conceitos primários como educação, respeito, honestidade. Num país onde grande parte dos turistas vêm de fora, é chocante ouvir “Oh, so you speak English?” ao atender  alguém em Inglês. O gringo price é prática estabelecida em praticamente todos os destinos turísticos do Brasil. Problemas crônicos que vão do abastecimento ao recrutamento de mão de obra podem ser observados tanto na cabana de praia como no resort estrelado.

A infra-estrutura turística do país melhorou muito. Mas, se as pessoas ainda se surpreendem ao ser bem tratadas, é sinal de que ainda há muito a ser feito.

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4 Respostas to “Garçom”

  1. davicury Says:

    Neyzão, a falta de título era algum tipo de protesto ou rebeldia? rs

  2. Camila Sander Says:

    O mal-educado e preconceituoso era carioca? rs

  3. Evelyn Says:

    Bem, geltileza SEMPRE gera gentileza, só que ninguém paga pra ver…

  4. Guga Says:

    Atende na cabana do pai Tomáz? quá quá quá…

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