Bola oval, marketing redondo

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Domingo à noite, foi disputada a quadragésima quarta edição do Superbowl, partida que decide o campeonato americano do que eles insistem em chamar de futebol. Os New Orleans Saints bateram os Indiana Colts – desfile de uma simpática zebra que marca a ressurreição da cidade após a devastação do Katrina.

Mas se eles se apropriam indevidamente do nome do nosso querido ludopédio, jogam um bolão quando se trata de vender o esporte. Os caras da bola oval fazem um trabalho infinitamente melhor do que os boleiros de cá.

Prefere o caneco aí de cima ou a taça das bolinhas?

Não podemos tratar de forma igual modelos de negócios essencialmente diferentes. Os times do futebol americano são, há décadas, franquias. Se por um lado isso parece quebrar um pouco da ligação emocional que há por aqui (times com origem num bairro especifico, ou fundados por uma colônia de imigrantes), é inegável que cartola de lá não é torcedor de gravata. É preciso salientar que isso também leva a bizarrices como times que mudam de uma cidade pra outra – é como se o Vitória da Bahia resolvesse ir pra Porto Alegre.

Mas, pra onde quer que se olhe, há lições a ser assimiladas o mais rápido possível.

O olé começa no que deveria ser a fonte primária de informação sobre os esportes. Sem meias palavras, o site da NFL dá um banho no da CBF. Seja pela qualidade e quantidade de informação disponível ou pelo relevante fato de o da NFL ser independente, enquanto o da entidade tupiniquim é vinculado a um grande portal.

Costumeiramente, o Superbowl retém a maior audiência do ano, o que evidentemente catapulta os preços dos anúncios durante os intervalos. Um anúncio de 30 segundos custa cerca de 2.8 milhões de dólares, o que faz com que as empresas invistam (além de um caminhão de dinheiro) muita criatividade e talento na execução de peças que viram ícones culturais americanos.  Quatro edições do Superbowl figuraram entre os 10 programas mais assistidos da historia. Esse bolo imenso é dividido por 4 das maiores emissoras americanas (ABC, NBC, Fox e CBS) que o exibem num sadio sistema de rodízio anual.

O grande dia traz consigo o segundo maior consumo de comida nos EUA (só perde para a tradicional comilança de Ação de Graças). A data tem sua própria marca registrada (“Super Sunday”).

O megajogo acontece alternadamente em 21 das cidades que possuem uma franquia de time. A localidade é escolhida com anos de antecedência (já se sabe onde serão disputadas as partidas até 2013), em processos similares ao da escolha da sede dos Jogos Olímpicos. Por conta disso, até hoje nenhum time decidiu o campeonato em seu próprio estádio. Chato? A rede hoteleira das cidades escolhidas não acha. Aqui nos trópicos, nem o Estatuto do Torcedor impede dirigentes de mudar o local da partida poucos dias antes de sua realização.

Os 30 minutos de intervalo do jogo são um show à parte. Com o potencial de criar celeumas como a de 2007, quando a MTV (produtora do show) foi permanentemente banida da função após o incidente com a roupa de Janet Jackson, que deixou seu mamilo exposto –  virou até verbete na Wikipédia, wardrobe malfunction. Entre os que se apresentaram no intervalo ou cantaram o hino americano antes do jogo, nomes do calibre de Aretha Franklin, Whitney Houston, Beyoncé, Ray Charles e Michael Jackson.

Isso é o Superbowl: uma festa de esporte, música, fanatismo, organização, planejamento e muito dinheiro. Anunciantes torram fortunas pra ser o mais lembrado, o mais inovador, o mais icônico. Canais de TV aproveitam a audiência monstruosa para estrear ou encerrar séries de sucesso. Times capitalizam vendendo qualquer produto onde caiba uma logomarca. Ah, e vale lembrar: as camisas das 32 equipes da NFL não trazem um só patrocinador. Torcedores gastam os tubos pra deslocar-se através do país, comprar ingressos, produtos licenciados, pagar hospedagem e comida, e saem torcendo pro seu time estar lá de novo no ano que vem. É a fusão bilionária do esporte com o showbiz.

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6 Respostas to “Bola oval, marketing redondo”

  1. davicury Says:

    irado, Neyzao! mais um belo post!

    só fiquei na dúvida se o episódio com a Janet não foi em 2004…

  2. Rubens Says:

    Boa Ney, é de posts como esses que precisamos.

  3. Marcio Vieira Says:

    São enormes diferenças entre as ligas NFL/NBA/NHL/MBL e a CBF, e acho que a primeira pedra do efeito dominó é o sistema tributário dos dois países: o governo estadunidense incentiva o alto consumo com cargas tributárias reduzidas, vislumbrando o ganho no grande giro. Diferentemente o Brasil perpetua um modelo antiquado de alta tributação nas mercadorias, fazendo seu caixa a partir da margem, e não quantidade.
    Incoerente foi a volta do IPI visto que ficou comprovado que o Fisco nacional arrecadou mais em época da isenção ante o ano anterior, o que demonstra que o modelo mundial de carga tributária reduzida possibilita um crescimento econômico mais sólido, principalmente das das classes menos abastadas.

    Se pensarmos nos efeitos desse sistema, é óbvio que o modelo ianque promove mais o consumo, lá tudo é barato para consumir para o povo local sempre gastar menos… com mais.

    Por conseguinte, dentro do mundo esportivo, a questão principal são as franquias há mais de 30 anos: são empresas que visam o óbvio, o lucro.
    E tais franquias, sabendo da sua importância e apelo ao consumo, decidiram se unir, repartindo o bolo de forma justa. Assim são tanto para o lado de fora do campo (venda dos direitos televisivos), como para dentro, a citar os drafts, escolha de calouros de cada time.

    A venda dos direitos televisivos proporcionaram as franquias alcançar todo o país, permitindo o famigerado consumo, a identificação de uma “marca”/time com qualquer indivíduo do país, mesmo distante de seus estádios.

    Os EUA, com seus 350 milhões de habitantes (chute aproximado, espero), não são apenas povo, são potenciais consumidores, são pessoas a serem influenciadas, instigadas, e por isso que a batalha por um espaço no Super Bowl é tão grande, tão valorizado.
    Agora imagine atingir 1, 2, bilhões de consumidores. Pois é isso que essas empresas detentoras de algumas franquias estão fazendo ao investir pesado em clubes de futebol, como Manchester United e Arsenal.
    E outros empresários, chineses, russos, árabes, estão no mesmo caminho: comprando clubes de futebol pelo mundo sabendo de tal potencial.

    Já o Brasil é completamente diferente: seus consumidores estão, normalmente, próximos às suas sedes, em suas cercanias. Exceção aos clubes fluminenses que, em virtude da principal tv distribuir ao norte/nordeste o campeonato carioca, fomentou uma afinidade desses clubes com tais locais, criando uma torcida secundária dessa população, visto que os times locais, salvo raríssimas exceções em momentos tão raros quanto, atingem sucesso e jogam de igual pra igual na primeira divisão.

    Assim, como o sistema tributário brasileiro não impulsiona o consumo da população, vem à tona a “apelação” de diversos clubes por leiloar centímetros de suas camisas para buscar mais dinheiro para sustento do time.

    O Clube dos Treze foi um pontapé para buscar mais renda da televisão, mas esbarrou na falta de concorrência e num sistema de interesses escusos de mandachuvas cariocas em favorecimento da platinada dos Marinho.

    Enfim, só para resumir que o comentário já ficou extenso (o tema escrito pelo Ney de forma clara é muito amplo): Se a NFL tem dinheiro, é porque estruturou seu negócio em mãos de pessoas voltadas ao profissionalismo e lucratividade.
    O sistema brasileiro é arcaico, foca uma burguesia cinquentona que acha que clubes são locais de encontros da elite social, permitindo inclusive que a CBF divide o bolo de forma injusta, desiquilibrada.

    É embrionário, mas já vemos alguns resultados de clubes empresa: o Barueri (que logo mudará de nome), o Pão de Açúcar (vice líder da segunda divisão do Paulista) e o Red Bull Brasil (na terceira divisão).
    São clubes que sabem que não conseguirão ter uma torcida fanática, por outro lado, poderão atrair simpatizantes do Brasil inteiro, a ponto de receber convites (e dinheiro) para mudar suas sedes. E com tantos elefantes brancos que serão construídos para Copa, não me surpreenderia se o Barueri for para a terra da soja do Maggi, ou para Manaus, e sei lá aonde vão construir estádios.

    Acho que já mergulhei demais no tema.

    Abraços

  4. Gabriel Mafra Says:

    Ia fazer um post sobre o SuperBowl também, mas com a visão aqui de cima.

    Tem havido muitas críticas sobre a forma de utilização e “endeusamento” do momento. A principal patrocinadora, a Pepsi, decidiu, neste ano, desistir de fazer comerciais e estampar sua marca, por achar que o SuperBowl está inflacionado. A saída deles foi investir em mídia online, que é mais barata e traz uma maior capilaridade.

    Mas confusões a parte, a organização dos esportes aqui é realmente impressionante. O Maple Leafs, time daqui de Toronto de Hockey, é fraco demais, perde muito mais do que ganha e tem estádio lotado todo jogo. É uma pena que nosso futebol seja tão massacrado, especialmente considerando que temos os melhores jogadores e alguns dos maiores clássicos do futebol mundial.

    Belo post, Ney!!!

  5. Rodrigo Says:

    Ótimo post Ney.

    Só para comfirmar os shows que são os jogos nos EUA e minha indignação com o futebol brasileiro.

    Semana passada fui num jogo de NBA (Atlanta Hawks x Chicago bulls) e fiquei impressionado com a Infraestrutura do Ginásio.. Mais de 40 opções de lugares para você comer, banheiros adequados, mais de 10 lojas de artigos esportivos, organização, etc.. tudo por U$20 dollares.

    No Brasil inteiro não há um estádio que chegue aos pés de algo parecido, além de pagarmos um absurdo pelo ingresso (Setor visa no estádio Palestra Itália, que é descoberto chega a custar R$ 120 = U$ 60).

  6. davicury Says:

    porra, o comentário do Marcião é maior que o próprio post!

    Marcião, junte-se a nós no blog, po!

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