O emprego novo do Fenômeno

by

Ex jogadores de futebol não costumam ter problemas de grana. Claro, há exceções, casos de atletas que por um motivo ou outro encontraram dificuldades financeiras após abandonar o esporte. Mas, de forma geral, os milhões acumulados lhes permitem uma vida com poucos sobressaltos.

Parar de jogar não precisa representar o fim da vida profissional. Alguns se mantém ligados ao esporte, como treinadores, empresários de jogadores, dirigentes de clubes, comentaristas. Outros se aventuram por outras searas: abrem empresas, e, claro, metem-se com a política. É triste fato que a habilidade com a bola não costuma ser acompanhada de bom desempenho acadêmico. Ao contrário de países onde o desenvolvimento atlético é necessariamente atrelado à formação escolar, é sabido que nossos craques têm de optar bem cedo entre ir à escola ou perseguir o sonho de ser um jogador. Também por isso, aqueles que falham em amealhar recursos suficientes para manter o padrão de vida após a aposentadoria costumam ter pouco preparo para se recolocar profissionalmente.

Mas surge um novo modelo.

Olha a pinta de businessman!

Antes de torcer o nariz e achar que é papo de torcedor, analise. Que outro jogador tem tanta consciência da importância das marcas para o esporte? Tome-se, por exemplo, outro pentacampeão veterano, recentemente contratado pelo São Paulo. Assim como Ronaldo, Rivaldo trouxe patrocínio e visibilidade. AVisa pagou uma bela grana pra estampar sua marca na camisa do time da Vila Sônia durante a apresentação e a estréia do jogador. Estréia, aliás, com direito a golaço! Daí, na apoteótica comemoração, que seria estampada em todos os jornais do dia seguinte e reprisada à exaustão pelas tevês – gerando, evidentemente, grande exposição da marca, Rivaldo vai lá e… levanta a camisa! Em seu gesto típico, o jogador cobre a cabeça com a camiseta, escondendo a marca do patrocinador e certamente desagradando quem abriu os cofres pra ter seu nome exibido…

Ronaldo, ao contrário, parece ter grande ciência do papel que tem como vitrine. Sabe o quanto vale, cobra caro e entrega resultado. Veste os filhos com a camisa do time, deixou o cabelo crescer pra promover um tônico capilar, cita nomes de empresas em entrevistas. Entra aí mais um diferencial: o cara é craque também no relacionamento com a imprensa. Nem a Globo, avessa a veicular marcas a não ser que tenha sido bem paga para tal,  se atreve a editar o áudio ou camuflar as empresas que Ronaldo promove. Como ele retribui? Fácil perceber. Quem tem acesso em primeira mão às suas entrevistas quando ele quer anunciar uma mudança de clube, falar sobre a recuperação de uma cirurgia, se retratar depois de um escândalo ou anunciar o fim da carreira? A emissora do plim-plim, é claro.

É a primeira vez que se ouve falar de um jogador que serve como ponte entre patrocinador e time. Ao lotear a camisa, o Corinthians disse a Ronaldo: “Venda estes espaços pelo preço que conseguir, e me dê uma parte”. O Gordo saiu batendo na porta das empresas e voltou com um saco de dinheiro. Nike, Gilette, Hypermarcas e tantas outras não parecem nem um pouco arrependidas de contratá-lo como promotor de vendas. Fãs de Real Madrid, Barcelona, PSV, Milan e Internazionale ainda compram camisas e as estampam com seu nome.

Deixar os gramados afasta a possibilidade de conflitos de interesses e permite a Ronaldo exercer sua nova atividade em paz. Deverá seguir ligado ao Corinthians, em partidas de exibição, eventos de relacionamento, campanhas publicitárias.

Daí vai ter torcedor xingando: “Mas o cara é boleiro ou garoto-propaganda”? Por muito tempo, os dois, com maestria. Agora, vai se dedicar ao marketing, e há fortes indícios que também nesse campo irá bater um bolão. Engula a hipocrisia: é o dinheiro das grandes empresas que paga a conta do futebol que a gente vê na tevê. Se há gente preparada pra usar essa grana em prol de times com finanças mais saudáveis, torcedores mais valorizados, camisas menos poluídas, equipes competitivas e campeonatos de melhor nível, por favor nos prestem este serviço. O futebol agradece.

Anúncios

Tags: , , ,

2 Respostas to “O emprego novo do Fenômeno”

  1. Marcio Vieira Says:

    Verdade, Ney!
    Atletas diferenciados que pensam além do salário e, como uma verdadeira empresa, apoiada por profissionais, negociam nome e imagem. Além do Ronaldo, outro recente aposentado que serve de modelo é Lance Armstrong, um dos atletas-empresários, com forte engajamento social, mais bem sucedidos no mundo.
    Enquanto alguns vão se esconder na Sibéria, outros enxergam oportunidades dentro da crise.

  2. Nina Says:

    Texto excelente!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: